A
seringueira, planta nativa da Região Amazônica da qual se extrai o látex para
fabricação de borracha natural, a partir da saída de seu habitat passou a ser
cultivada em grandes monocultivos, principalmente nos países asiáticos. No
Brasil, seu cultivo obteve grande sucesso nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste, na
Bahia e mais recentemente no oeste do Paraná. A produção brasileira atual é de
aproximadamente 105 mil toneladas, para um consumo em torno de 250 mil, tonando-se necessário importar 145 mil toneladas de
borracha natural de outros países, o que contribui muito para o desequilíbrio
da balança comercial do agronegócio brasileiro.
Na Amazônia, a situação do setor da borracha natural é bastante
crítica. No Acre, por exemplo, antes de 1999, os preços estiveram em seus
patamares mais baixos chegando-se a receber menos de R$ 0,50/kg e uma produção estadual em torno de 1,5 mil
toneladas, que culminou com o fechamento de usinas, abandono de seringais e
êxodo rural, promovendo inchaço na periferia de Rio Branco e empobrecimento dos
povos da floresta. A adoção da política de subsídios pelo governo estadual, por
meio da Lei Chico Mendes, somada à política de preços do governo federal, gera
atualmente um preço de R$ 1,67 por quilo de borracha tipo CVP (cernambi virgem
prensado), constituindo o valor mais alto pago pelo produto no País. No
entanto, sabe-se que apenas esse tipo de incentivo não é suficiente para
aumentar a produção e garantir sustentabilidade ao setor, entretanto,
reconhece-se que o estímulo elevou a produção para algo em torno de 5 mil
toneladas/ano, reativando usinas e seringais em todas as regiões do Estado do
Acre, envolvendo aproximadamente 7 mil famílias de seringueiros no processo
produtivo.
Percebe-se,
portanto, que a situação do setor é bastante complexa e exige medidas urgentes
no sentido de que o governo federal crie programas de financiamento para
implantação e cultivo da seringueira em todo o Brasil. Na Amazônia o principal
problema é o mal-das-folhas, doença causada pelo fungo Microcyclus ulei. A Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus, AM) e
Embrapa Acre desenvolveram uma técnica de combinação de enxertias de
copa/painel que solucionou o problema, faltando agora programas de
financiamento para plantios em grande escala. No Acre, essa produção é
predominantemente de seringais nativos, apenas uma pequena parcela provém de
seringais de cultivo remanescentes do extinto Probor coordenado pela também extinta
Sudhevea.
A partir da
ratificação definitiva do protocolo de Kyoto, que reduz a emissão de gases
poluentes na atmosfera, principalmente o CO2 o qual promove o
aquecimento da terra, abre-se a perspectiva de obtenção de uma renda extra da
seringueira por meio da venda de créditos de carbono, podendo-se portanto
utilizar a árvore para reflorestamento, recuperação de áreas abandonadas ou
degradadas e em sistemas agroflorestais, este último viável do ponto de vista
da amortização dos custos de implantação e
diversificação de renda e de produtos.
Enfim, diante do
quadro local mostrado e de um panorama nacional bastante desfavorável, em que o
País importa cerca de 60% de toda a borracha natural que consome, urge que o
governo federal tome medidas que permitam ao Brasil atingir a auto-suficiência
em produção de borracha natural. Apresentamos como sugestões principais o
estabelecimento de políticas de crédito e assistência técnica específica para a
cultura, criação de um programa
nacional de pesquisa e desenvolvimento que contemple toda a cadeia produtiva da
seringueira e da borracha natural, estímulo à implantação de novas áreas de
plantio e, por último, utilização pelo setor madeireiro de árvores oriundas de
cultivos ao final do ciclo de produção de látex. Essas medidas em médio e longo
prazo proporcionariam ao Brasil condições de voltar a ser pelo menos
auto-suficiente em borracha natural, o que contribuiria para um maior
equilíbrio da balança comercial brasileira e o tornaria menos dependente dos
países que dominam o mercado internacional de borracha, por meio da
regularização de estoques e dos preços. Por fim, o nosso principal objetivo é
mostrar para a sociedade que muito tem que ser feito por um produto brasileiro,
do qual fomos o maior produtor mundial e hoje somos um grande importador, tudo
isso, devido à falta de políticas corretas de pesquisa, crédito rural,
incentivos fiscais e de assistência técnica à cultura no País.
1Eng. agrôn., Pesquisador da
Embrapa Acre, tadeu@cpafac.embrapa.br